updated 4:39 PM UTC, Nov 24, 2017

Farmacovigilância domina terceiro dia do Congresso de URM

A farmacovigilância dominou o terceiro dia do Congresso Brasileiro de Uso Racional de Medicamentos.

Não foi por acaso. Uma vez que o leme do evento é a segurança do paciente, logo de manhã, o presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Dirceu Barbano, o consultor da Organização Pan-americana de Saúde (OPAS), José Luiz Castro e o diretor do Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos, José Miguel do Nascimento Júnior, ressaltaram a importância da notificação espontânea de problemas relacionados aos medicamentos, tanto por parte dos profissionais, quanto da população.

O trio foi unânime em avaliar o papel dos procedimentos relacionados à detecção, avaliação, compreensão e prevenção de reações adversas dentro do uso racional.  

Em seguida, a coordenadora da área técnica da Secretaria Municipal de Saúde, Dirce Cruz Marques, mediou uma mesa redonda sobre a como a utilização das diretrizes e protocolos de medicamentos auxiliam para a segurança do paciente.

Anvisa e Farmacovigilância

O calor não dispersou os participantes que, após o almoço compareceram em peso no auditório principal do Anhembi, onde acontece o congresso. Farmacovigilância e gerenciamento de riscos andam juntos. Gerente de análise e avaliação de riscos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), Márcia Gonçalves apresentou quais são as principais ações do órgão nesta área. “O próprio registro de produtos novos, um centro de gerenciamento de emergência de saúde pública, e nosso sistema de notificações, o Notvisa”, uma ferramenta primordial no monitoramento de reações adversas e queixas técnicas.

“Hoje nosso principal método é a notificação voluntária por profissionais, a notificação estimulada, que é feita pela rede Sentinela, que coopera com mais de 60% das informações do nosso banco de dados, e a notificação compulsória, que é obrigatória para os detentores de registro.”

O roteiro seguido pela Anvisa é priorizar os riscos de modo a facilitar os processos de diagnóstico e prevenção. Márcia lembrou da exigência do órgão para que as indústrias possuíssem um sistema de gerenciamento de ameaças para os medicamentos produzidos, “e determinar relatórios periódicos do seu funcionamento”.

Farmacovigilância hospitalar

Distante do ambiente institucional, a farmacêutica e gerente de risco dos hospitais universitários da Universidade Federal do Ceará, Eugenie Desirèe Rabelo, revelou que, na rotina hospitalar, “o gerenciamento de risco vai muito além de identificar reações adversas”.

“Os riscos existem, mas ele não são macroscópicos, e do mesmo jeito que existe dificuldade para fazer as pessoas lavarem as mãos dentro dos hospitais, os riscos funcionam da mesma forma. De uma forma que a gente nem percebe, pode causar um dano irreparável”, alertou.  

O desafio, segundo Eugenie, é “despertar o profissional” para ser um vigia constante para acompanhar o uso dos produtos pela população “na vida real”.

Dentre as estratégias utilizadas, ela destacou a denúncia de desvio de qualidades dos produtos, e o feedback dando a quem notificou algum problema relacionado a fármacos. “Se as pessoas não tiverem o retorno dessas notificações, o que vai acontecer, elas vão deixar de notificar.”

Vice-presidente do Sindicato dos Farmacêuticos no Estado do Amazonas, Rodrigo Sena, concorda: “A Anvisa tem que dar esse Feedback. Eu cheguei a notificar quando trabalhava em drogarias”

Rodrigo é defensor de conhecer a farmacovigilância ainda na graduação. “Tem que começar na academia, pro estudante ter estímulo. A gente executa a farmacologia quando chega para trabalhar”.

Farmacovigilância na academia

Em relação ao caminho que deve ser feito para estimular a farmacovigilância em instituições acadêmicas, a médica sanitarista e ex-diretora da divisão de medicamentos do Ministério da Saúde, Suely Rozenfeld, foi enfática. “Tem que vencer o maior inimigo da farmacovigilância, que é a ideia que as pessoas tem do valor simbólico do medicamento, como bala mágica, bala que cura, ferramenta que tem que ser usada todos os dias por todas as pessoas. Tem uma cultura que o medicamento é imprescindível para a vida”.

A médica ainda respondeu que o único jeito de resistir à pressão de “políticos ou indústrias”, no que diz respeito a acabar com o hábito de comprar remédio sem necessidade, “é admitir que isso existe”.  “Nós temos visto o caso dos anorexígenos, que foi falado pelo Dirceu Barbano na parte da manhã, e a situação está visível desde que o deputado Beto Albuquerque [hoje, vice de Marina Silva] entrou com um pedido, derrubando decisões da Anvisa, eu acho que o fato do problema ter saído dos muros da academia, tem feito as pessoas entenderem o papel da Anvisa como instância reguladora fundamental no nosso país”.

Se a proposta do Congresso é conectar os profissionais de saúde em torno das questões de segurança do paciente ampliando o conhecimento e qualificação, a colombiana Diana Salazar Cortez veio buscar inspiração no lugar certo. De sotaque leve, enfeitado por um largo sorriso, ela confessou que os desafios da farmacovigilância não faz distinção de país.  “Eu acho que o Congresso é uma ferramenta muito importante no desenvolvimento da farmacovigilância. Os desafios da farmacovigilância são os mesmos na Colômbia. Acho que é muito importante ver que farmacovigilância não é uma coisa só do farmacêutico, mas dos profissionais da saúde”.  

E não é mesmo. Todos os profissionais de saúde devem cumprir o papel de vigilantes da saúde. Inclusive, porque a segurança dele é diretamente ligada a quantidade de informação que ele recebe. “Na verdade, a farmacovigilância é uma grande ferramenta para que a gente tenha ações para a gente chegar no uso racional de medicamentos”, concluiu a diretora do Sindicato dos Farmacêuticos no estado de São Paulo, Priscila Vautier.  Vigiar e informar, pelo visto, não combinam só na rima. 

Leonardo Simões

 

Última modificação emDomingo, 11 Junho 2017 13:54